Quem olha só a manchete de demissão em tech sai com a impressão de que o mercado inteiro travou.
Só que os dados mais recentes contam uma história mais incômoda — e mais útil. O corte continua forte, a grana está sendo redirecionada para IA e infra, mas engenharia de software ainda segura uma parte relevante da demanda. O problema é que essa demanda ficou mais estreita, mais seletiva e mais espalhada fora do velho centro do Big Tech.
Para quem trabalha com TI, isso muda bastante a leitura do mercado. Não é mais só uma fase ruim ou boa. É uma migração.
O mercado encolheu, mas não do mesmo jeito para todo mundo
Segundo o relatório de abril da Challenger, as empresas de tecnologia anunciaram 33.361 cortes no mês, levando o acumulado de 2026 para 85.411 demissões no setor. A IA apareceu como o motivo mais citado em 49.135 cortes no ano até abril.
Isso ajuda a explicar o clima de insegurança. Só que insegurança não significa ausência total de contratação.
A SignalFire, analisando dados de carreira e contratação em milhões de perfis e mais de 80 milhões de empresas, encontrou um recorte importante: nas big techs, o hiring total ficou 25% abaixo de 2019, mas as contratações de engenharia caíram bem menos, só 11%.
Em outras palavras: o bolo diminuiu, mas engenharia perdeu menos espaço do que quase todo o resto.

Também por isso os engenheiros passaram a representar 55% de todas as novas contratações nas chamadas Tech Majors em 2025, contra 46% em 2019.
O dinheiro está mudando de lugar dentro da TI
O discurso simplista era que a IA viria para apagar vagas de engenharia primeiro.
Até agora, o que aparece é outra coisa: a IA está sendo usada para justificar reestruturação, cortar camadas de apoio e concentrar orçamento em funções mais próximas de entrega técnica, dados, segurança e operação.
No relatório da SignalFire, a perda foi bem mais pesada em design, produto e marketing. Dentro de engenharia, o peso relativo cresceu especialmente em áreas mais ligadas a alavancagem técnica:
- AI/ML engineering
- research engineering
- integrações complexas e funções mais próximas de solução
- dados, automação e infraestrutura
A leitura prática é simples: a vaga não desapareceu. Ela ficou mais cara, mais exigente e menos distribuída.
Onde ainda existe tração real
O relatório da ICIMS ajuda a completar o quadro. Mesmo com a sequência de layoffs, a demanda por perfis capazes de construir, operar e sustentar sistemas com IA continua subindo.
Os cargos com maior crescimento anual de vagas abertas foram:
- programadores: +35%
- desenvolvedores de software: +28%
- DBAs: +27%
- gestão de sistemas e informação: +22%
- QA e testes: +20%
E tem outro detalhe importante: parte dessa demanda está saindo do eixo clássico do Big Tech.
Segundo a ICIMS, saúde e manufatura puxaram contratação de talento tech, com alta de 8% e 4% respectivamente desde maio de 2025. Isso conversa com um movimento bem claro: empresas menos “tech famosas” continuam acelerando digitalização, dados, automação e IA aplicada.
Para muita gente em TI, esse pode ser o pedaço mais útil da história. A oportunidade não sumiu necessariamente; ela pode só não estar mais onde todo mundo continua olhando primeiro.
O lado ruim: a régua ficou mais pesada
Isso não é uma mensagem otimista no piloto automático.
A própria SignalFire mostra que a porta de entrada afunilou forte: a contratação de novos graduados caiu algo perto de 65% nas big techs e 76% nas startups early-stage em relação a 2019.
Ou seja: o mercado não está saudável. Ele está redistribuído e mais duro.
Tem vaga para perfis que entregam alavancagem clara. Tem menos paciência para função mal definida, camada de coordenação demais e contratação de júnior sem contexto de operação real.
O que muda para quem está procurando vaga agora
Se você está em busca de trabalho em TI, a pior leitura possível é continuar usando mapa velho para mercado novo.
Hoje faz mais sentido:
- mirar empresas de saúde, indústria, serviços financeiros e operações com transformação digital forte
- mostrar portfólio com entrega real, não só curso e certificado solto
- evidenciar uso prático de IA no fluxo de trabalho, com critério e revisão humana
- reforçar repertório em dados, automação, backend, infraestrutura, segurança e integração
- adaptar o currículo para a função específica, porque a contratação ficou mais seletiva e menos tolerante a ruído
Para quem está no início da carreira, a mensagem é menos confortável: prova de trabalho vale cada vez mais. Projeto publicado, contribuição visível, documentação boa e capacidade de explicar decisão técnica contam mais do que antes.
O mercado de TI não morreu. Ele ficou desigual
Essa talvez seja a frase mais honesta para resumir o momento.
Os layoffs continuam, a IA virou justificativa oficial em muita reestruturação e a entrada está mais apertada. Mas a contratação técnica não evaporou na mesma velocidade. Ela está migrando para funções de maior alavancagem e para setores que não carregam a mesma fama de Big Tech.
Para quem trabalha com TI, isso muda a estratégia: menos ilusão com manchete genérica, mais leitura de onde o orçamento ainda está indo.
Fontes
- SignalFire — State of Tech Talent Report 2026
- ICIMS — Tech Layoff Headlines Are Masking a Surge in AI-Driven Hiring Demand
- Challenger, Gray & Christmas — April job cuts report
- TechCrunch — AI was supposed to kill engineering jobs, but new data suggests they’re the most resilient
- HR Dive — Despite tech layoffs, demand for AI-savvy hires is increasing
- HR Dive — Tech layoffs climb as AI remains top driver