Um dev deixou a IA escrever todo o código por 30 dias. O que quebrou é o alerta.

Um relato publicado no DEV Community começou com uma regra simples e meio radical: por 30 dias, o desenvolvedor não escreveria código de aplicação à mão. Ele poderia descrever, revisar, rejeitar e aprovar. Mas quem digitava a lógica era a IA.

O resultado não foi um experimento de brinquedo. Segundo o autor, saiu um SaaS pequeno com autenticação, Stripe, dashboard e API pública. Funcionou em produção. Só que o ponto mais interessante não foi o que a IA conseguiu fazer. Foi o que quebrou quando ela parecia estar indo bem demais.

A parte fácil ficou realmente fácil

No começo, a história é quase exatamente o que o hype promete. Estrutura inicial de app, CRUD, validação, schema, tabela com paginação, componentes básicos, resposta para problema de query lenta. Tudo isso saiu rápido.

Esse pedaço importa porque muita gente ainda discute IA como se fosse só autocompletar com fantasia. Não é. Para o trabalho repetitivo de levantar estrutura, escrever primeira versão e tirar boilerplate da frente, a ferramenta já mudou o ritmo de produção.

O problema é que o mercado não paga só por primeira versão. Ele paga por software que aguenta usuário real, exceção real, regra de negócio torta e manutenção três meses depois.

O primeiro estrago foi a arquitetura escorrendo pelos cantos

No relato, os primeiros “breaks” vieram de uma coisa bem conhecida por quem mexe em base de código de verdade: a IA resolvia bem o arquivo da frente, mas perdia a coerência do sistema inteiro.

Ela recriava helper que já existia. Fazia checagem de autenticação inline em vez de usar o middleware. Criava tipo parecido, mas não igual, para representar o mesmo usuário. Nada disso explode na hora. Compila. Passa. Parece limpo. Só que começa a criar uma versão paralela da arquitetura.

Esse é o tipo de dívida que não aparece em demo. Aparece quando alguém precisa mexer no fluxo de billing, quando o onboarding muda, quando um bug atravessa três módulos e ninguém sabe mais qual regra é a oficial.

O bug mais perigoso era o que parecia certo

A parte mais útil do caso foi um exemplo de webhook de pagamento. Segundo o autor, a IA escreveu um handler que confirmava o evento do Stripe antes de persistir o dado. Em teste, tudo parecia certo. Em produção, uma falha de banco no momento errado poderia virar cliente pagante sem acesso e sem registro confiável.

Esse é o alerta para quem está começando: o erro de IA que mais machuca nem sempre é o código absurdo. Esse a gente vê rápido. O erro perigoso é o código plausível, bonito, que roda no caminho feliz e falha justamente onde experiência costuma gritar “confere isso melhor”.

O Stack Overflow Developer Survey 2025 bate na mesma tecla por outro caminho: mais devs desconfiam da precisão das ferramentas de IA do que confiam nelas, e a maior frustração citada foi lidar com soluções “quase certas, mas não exatamente”. Essa frase descreve muito bem o buraco.

Para o júnior, a pergunta ficou mais desconfortável

O autor do relato chega numa síntese incômoda: a IA não substituiu o desenvolvedor. Ela substituiu várias tarefas que antes eram passadas para juniors.

Scaffold, boilerplate, primeira versão, CRUD simples, ajustes repetitivos. Justamente o tipo de trabalho que muita gente usava para criar repertório, errar pequeno, ler código de produção e entender por que uma solução aparentemente boa pode ser ruim.

Isso não significa que “acabou a porta de entrada”. Significa que a porta mudou de formato. O júnior que só copia resposta da IA fica frágil. O júnior que usa a IA para produzir rascunho, mas treina leitura, teste, debugging, regra de negócio e revisão, fica mais interessante.

O novo treino é aprender a desconfiar com método

Um segundo texto da DEV Community, sobre gargalo de verificação, trouxe uma formulação boa: quando gerar código fica barato, verificar vira mais valioso. O exemplo era um fluxo de reset de senha que funcionava, mas deixava o link ser usado mais de uma vez. A especificação não tinha dito “uso único”, então a IA não tratou aquilo como obrigação.

É aí que entra uma habilidade menos glamourosa e mais empregável: escrever o comportamento esperado antes de aceitar o código. Não “cria reset de senha”. Mas: usuário pede reset, recebe link, troca senha, senha antiga não funciona, link usado não funciona de novo.

Para quem está começando, esse pode ser um plano prático de estudo:

  • peça para a IA criar uma solução, mas escreva você os cenários de teste;
  • revise o diff procurando regra duplicada, helper repetido e tipo inventado;
  • rode o fluxo quebrando o caminho feliz: duplo clique, dado vazio, retry, falha externa;
  • explique em voz alta por que o código está correto antes de aceitar;
  • quando não souber explicar, volte para fundamento em vez de só pedir outro prompt.

O recado não é largar a IA. É parar de terceirizar julgamento.

O próprio autor do experimento diz que continuaria usando IA para digitar. O que mudou foram os guardrails: separar quem gera de quem revisa, não deixar a ferramenta corrigir sozinha o próprio ponto cego e manter um humano responsável pelo merge.

Esse é o ponto mais maduro da discussão. A briga “IA substitui ou não substitui dev” já ficou pequena. A pergunta útil é outra: você sabe validar o que ela entrega?

Porque se a resposta for não, a IA vira uma máquina de acelerar confiança falsa. Se a resposta for sim, ela vira uma alavanca real. E para quem está entrando em TI agora, talvez esse seja o diferencial mais honesto: não competir com a IA na digitação, mas aprender a ser a pessoa que percebe quando ela está quase certa. Quase.

Fontes

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