O relato começa com uma trajetória que muita gente de TI reconhece: aprender sozinho, pegar projeto pequeno, entregar coisa real, fazer freela, entrar em empresa, estudar de madrugada, shippar uma feature difícil e acreditar que a carreira finalmente encaixou.
Depois vem a parte que dói: acabou o contrato, sumiram as tarefas e o mercado ficou tão fechado que o autor diz estar tentando até vaga não remunerada para voltar a trabalhar com um time real.
O caso apareceu no Hacker News com o título “Peak unemployment for a software engineer. What did I do wrong?”. Segundo o próprio relato, ele construiu apps de delivery ainda na faculdade, trabalhou com Node, React, TypeScript, Go, Docker, React Native, freelas, open source e chegou a entregar uma feature pesada com gRPC streaming em uma empresa conhecida de open source. Não é a história de alguém que ficou parado esperando o mercado bater na porta.
É por isso que o caso vale mais que o drama individual. Ele encosta em uma pergunta que anda rondando muita gente: se fazer “o certo” já não garante passagem, o que virou sinal forte de empregabilidade em TI?
O problema não é falta de esforço
No relato, o autor diz que aplicou para inúmeras vagas, contribuiu com open source, tentou SaaS, comprou curso de DevOps e continuou estudando para se manter relevante. Em outro trecho, resume a sensação: “sinto que fiz tudo que podia”.
Essa frase é importante porque quebra uma leitura preguiçosa do mercado. Nem todo profissional travado está travado por falta de vontade. Às vezes o gargalo está em geografia, rede de contatos, timing, senioridade percebida, excesso de candidatos globais, vaga falsa, processo ruim ou simplesmente na falta de uma empresa disposta a apostar em alguém fora do centro óbvio.
O autor mora no Iraque e trata o remoto como praticamente a única forma de entrar em projetos relevantes. Para muita gente no Brasil, a sensação é parecida: o remoto internacional parece uma ponte enorme, mas a ponte está cheia de pedágio invisível. Inglês, fuso, confiança, indicação, histórico em empresas reconhecidas, prova pública e capacidade de trabalhar sem supervisão viram filtros antes da entrevista.
A IA subiu a régua, mas não do jeito simplista
O relato também cita a IA como parte da mudança: “de repente a régua ficou muito mais alta”. Dá para discordar da causalidade direta, mas é difícil ignorar o clima. A IA não eliminou a necessidade de dev, mas mexeu na expectativa de produtividade, no volume de candidatos e na forma como empresas filtram quem parece pronto.
A Stack Overflow Developer Survey 2025 ajuda a colocar isso no chão. Na seção de trabalho, 64% dos respondentes disseram não ver IA como ameaça ao emprego, abaixo dos 68% do ano anterior. Ao mesmo tempo, quando perguntados sobre o que faz uma tecnologia ser bem vista no trabalho, desenvolvedores ainda priorizam API, qualidade, confiabilidade e custo; “ter IA” aparece lá embaixo.
Traduzindo: a pressão existe, mas o mercado não está contratando alguém só porque sabe usar ferramenta de IA. Ele está cobrando mais prova de autonomia, qualidade e julgamento. A parte cruel é que esse filtro costuma cair mais pesado justamente em quem ainda não tem marca forte no currículo.
Vaga falsa piora a leitura do cenário
Outro ponto do relato é familiar demais: vagas falsas, agências que fazem o candidato perder tempo e oportunidades que parecem existir só para coletar formulário.
Quando o candidato não sabe se a vaga é real, o esforço vira loteria. Ele aplica, ajusta currículo, escreve mensagem, faz teste, espera retorno e depois descobre que talvez ninguém estivesse realmente contratando. Isso bagunça a régua emocional e a régua prática: fica difícil saber se o problema é o currículo, o mercado, a senioridade, o país, a stack ou simplesmente uma vaga cenográfica.
Para quem está procurando trabalho, esse é um ponto de disciplina: medir qualidade de pipeline, não só quantidade de candidaturas. Vaga com descrição vaga, sem faixa, sem empresa clara, sem dono do processo e republicada eternamente precisa entrar com peso menor na sua semana.
O que ainda dá para controlar
O caso não tem solução mágica, e talvez essa seja a parte mais honesta. Mas ele deixa alguns sinais úteis para quem está no mesmo tipo de travamento.
- Prova pública precisa virar narrativa. Open source e projeto próprio ajudam mais quando você explica problema, decisão, trade-off e impacto.
- Currículo genérico perdeu força. Se a vaga pede produto real, mostre produto real. Se pede DevOps, mostre entrega de deploy, observabilidade, incidente ou automação.
- Rede fraca pesa muito no remoto global. Comunidade, indicação, colaboração pequena e contato recorrente podem valer mais que aplicar para mais 200 vagas frias.
- Aprender mais uma stack nem sempre resolve. Às vezes o gargalo está em posicionamento, inglês escrito, recorte de mercado ou falta de foco em um tipo de vaga.
- Saúde mental faz parte da estratégia. Procurar emprego em mercado ruim consome energia de trabalho sem entregar salário. Ignorar isso cobra juros.
A pergunta certa muda um pouco
A pergunta “o que eu fiz de errado?” talvez seja pesada demais. Em muitos casos, a pergunta mais útil é: “qual sinal o mercado está conseguindo enxergar em mim?”.
Porque esforço invisível não compete bem com candidato indicado, currículo com marca reconhecida, case bem contado ou histórico claro em produção. Não é justo, mas é o jogo que está aparecendo.
O relato do Hacker News funciona como alerta justamente por isso. O mercado de TI ainda tem espaço, mas ficou menos generoso com trajetória promissora sem embalagem forte. Hoje, saber fazer precisa vir acompanhado de prova, contexto e canal. Sem isso, até um dev que fez muita coisa certa pode parecer só mais um nome em uma fila enorme.