Quem está tentando entrar em TI já vinha sentindo a porta mais estreita. O ponto é que agora isso aparece ao mesmo tempo em dois lugares: nos dados de emprego e na descrição das vagas.
Uma análise recente do Seldo, construída em cima de dados da Stanford Digital Economy Lab, mostra que a faixa de 22 a 25 anos em software caiu 19% desde o pico do fim de 2022. Em paralelo, a vaga oficial de Software Engineer I da Smartsheet já pede experiência com cloud, APIs e até 6+ meses usando IA para ganhar produtividade.
Não é o fim da carreira júnior. Mas é um sinal bem claro de que o mercado de entrada mudou de régua — e rápido.
Os números mais duros estão justamente na base
Segundo o texto do Seldo, a piora não aparece de forma homogênea para todo mundo em software. O tombo fica concentrado em quem está na ponta de entrada:
- desenvolvedores de 22 a 25 anos estão 19% abaixo do pico de 2022;
- os anúncios de vagas de entrada em software estão 28% abaixo do topo daquele ciclo;
- enquanto isso, as faixas mais experientes cresceram no mesmo período.

O detalhe importante é que o próprio texto evita a simplificação preguiçosa de culpar só o lançamento do ChatGPT. A leitura ali é mais incômoda: o mercado já vinha esfriando, mas a pressão aumentou de verdade quando assistentes de código e fluxos mais agentic começaram a completar pedaços maiores do trabalho que antes serviam justamente como porta de entrada.
O trabalho não sumiu. O tipo de vaga é que mudou
O mesmo material mostra outro recorte útil: empregos mais “de execução para especificação” encolhem mais do que funções que exigem julgamento, contexto e decisão. Em outras palavras, escrever código continua valendo muito. O que perdeu espaço foi o pedaço mais facilmente delegável.
Esse contraste fica ainda mais visível quando você olha vagas reais abertas agora.
Na descrição da Smartsheet para Software Engineer I (Remote Eligible), o pacote esperado para um nível de entrada já inclui:
- pelo menos 1 ano de experiência de desenvolvimento;
- familiaridade com Java, Kotlin, Python ou TypeScript;
- experiência com cloud;
- experiência com REST APIs;
- e 6+ meses de uso profissional de IA para acelerar coding, testing, design e troubleshooting.
Ou seja: a vaga ainda é de entrada, mas o contratante já quer alguém que chegue produzindo com ferramenta nova, consiga navegar stack moderna e participe de revisão e discussão técnica sem depender de um onboarding muito básico.
Onde o dinheiro parece estar indo
Ler a vaga da Smartsheet junto com a vaga da Honeycomb ajuda a entender a direção do orçamento. De um lado, existe abertura para Software Engineer I — mas com régua mais alta. Do outro, a Honeycomb está contratando Senior Software Engineer II especificamente para agentes, memória, evals e observabilidade orientada a IA.

O recado prático é simples: boa parte das empresas parece menos disposta a bancar a fase “aprende aqui dentro com tarefas mais mecânicas”. Ao mesmo tempo, elas continuam abrindo espaço onde existe impacto direto em produto, confiabilidade, automação e ganho de eficiência.
O que isso muda para quem está entrando agora
Se você está mirando vaga júnior ou primeira vaga efetiva, o erro hoje é montar currículo como se ainda estivéssemos em 2021.
O que tende a pesar mais agora:
- portfólio com contexto: não basta colar projeto; precisa mostrar qual problema você resolveu, como tomou decisão e onde a IA ajudou ou atrapalhou;
- prova de julgamento: recruiter e tech lead querem ver menos “copiei do prompt” e mais “sei revisar, ajustar e defender a solução”;
- stack que conversa com o mercado: cloud, APIs, observabilidade, automação e produto seguem aparecendo mais do que treino puramente acadêmico;
- leitura de vaga com filtro melhor: se a descrição já pede autonomia demais para o nível, trate como sinal de mercado apertado — e ajuste sua preparação para essa régua real, não para a ideal.
A parte dura é essa: o mercado não matou a entrada, mas deixou bem menos espaço para aprender só depois de ser contratado. Hoje, em muitos casos, a empresa quer que a fase básica já venha parcialmente resolvida.
Vale olhar para isso sem dramatização fácil
Nem toda retração do mercado júnior vem só de IA. O próprio artigo-base cita juros, correção pós-excesso de contratação e mudanças fiscais como fatores que também pesaram. Ainda assim, quando a queda se concentra tanto na base e as vagas passam a pedir mais autonomia logo no nível inicial, fica difícil fingir que nada mudou.
Para quem está começando, a leitura mais útil não é “acabou”. É outra: a escada continua ali, mas tiraram vários degraus intermediários. Entrar ainda dá — só exige chegar mais pronto do que há poucos anos.