Um relato publicado no Hacker News resume bem uma sensação que muita gente de TI conhece, mesmo quando o mercado não está exatamente parado: a vaga existe, a mensagem chega, o recrutador aparece, mas a conversa já começa com cheiro de problema.
O autor do post diz que o time inteiro dele foi demitido recentemente. Ele também acompanhou amigos que passaram por layoffs neste ano e, segundo o relato, a recolocação ficou mais estranha do que simplesmente “tem pouca vaga”.
A frase mais importante não é “o mercado acabou”. É outra: parece melhor do que nos últimos anos, mas ainda não parece certo.
Esse detalhe muda tudo. O problema não é só quantidade. É qualidade do sinal.
O contato chega, mas vem cheio de ruído
No relato, o profissional diz que publicou no LinkedIn, recebeu boa visibilidade com ajuda de amigos e teve cerca de 10 recrutadores entrando em contato. Só que apenas duas abordagens eram para vagas remotas. A maioria era presencial ou híbrida, enquanto ele trabalha totalmente remoto.
Também apareceram propostas para trabalhar apenas por equity. Na thread mensal “Who wants to be hired?”, vieram mais ofertas sem salário e pessoas querendo que ele entrasse em calls para “delegar” trabalho e dividir receita.
Isso mostra uma mudança importante para quem está procurando vaga em TI: a primeira triagem não é mais só “sou qualificado para essa vaga?”. Também virou:
- essa oportunidade paga de verdade?
- a empresa existe e está contratando mesmo?
- o e-mail e o domínio fazem sentido?
- o desafio técnico é legítimo?
- a vaga respeita minha realidade de remoto, híbrido ou presencial?
É cansativo porque adiciona uma camada de segurança, negociação e sanidade antes mesmo da entrevista começar.
O golpe entrou no funil de contratação
A parte mais séria do relato é quando o autor afirma ter recebido abordagens promissoras com intenção de fazê-lo rodar malware escondido em desafios de código.
Esse ponto não deve ser tratado como paranoia. Ataques contra profissionais técnicos por meio de arquivos, testes, repositórios e supostos processos seletivos já viraram um padrão conhecido no mundo de segurança. A própria CISA, em alerta sobre grupos norte-coreanos, descreve campanhas que usam anexos maliciosos, arquivos compactados, atalhos do Windows e outros recursos para obter acesso inicial.
Ou seja: quando uma “empresa” desconhecida pede para você baixar um projeto, executar um binário, abrir arquivo estranho ou rodar um ambiente com pressa, a entrevista deixa de ser só uma entrevista. Ela vira superfície de ataque.
Para dev, isso é especialmente perigoso porque rodar código de terceiros faz parte do trabalho. A diferença é que, num processo seletivo legítimo, a empresa não deveria transformar urgência, informalidade e falta de transparência em requisito.
O remoto virou filtro mais duro
Outro ponto do caso é o atrito com o remoto. Segundo o autor, havia mais gente entrando em contato, mas a maioria das vagas vinha presencial ou híbrida.
Isso combina com uma tendência que já aparece em várias conversas de mercado: empresas voltaram a usar presença física como filtro, enquanto uma parte grande dos profissionais reorganizou a vida em torno do remoto.
Para quem mora fora dos grandes centros, cuida de família, trabalha melhor em casa ou simplesmente montou uma rotina eficiente, esse detalhe muda a régua. Uma vaga “boa” no papel pode virar inviável se exigir deslocamento ruim, mudança de cidade ou presença sem motivo claro.
E aí a busca fica mais lenta: não porque a pessoa não sabe programar, mas porque o conjunto aceitável de oportunidades diminui.
Referrals também ficaram lentos
O relato ainda cita indicações que estão andando devagar. Isso pesa porque indicação sempre foi uma espécie de atalho do mercado de TI: não garante contratação, mas normalmente tira o candidato do buraco negro do formulário.
Quando até indicação passa a andar em câmera lenta, o sinal é outro. Empresas podem estar entrevistando mais gente, abrindo vaga sem urgência real, congelando decisão no meio do caminho ou esperando “o candidato perfeito” aparecer.
Nos comentários da thread, outras pessoas reforçam esse clima. Um usuário diz que há menos vagas de gestão. Outro fala em rejeições automáticas e silêncio mesmo com 10 anos de experiência. Também aparece a percepção de que candidaturas geradas por IA e filtros automáticos de RH estão deixando o funil ainda mais barulhento.
Esse é o tipo de mercado em que volume engana. Aplicar para 100 vagas não significa conversar com 100 empresas reais. Às vezes significa atravessar 100 camadas de automação, repostagem, filtro fraco e oportunidade mal definida.

O que dá para fazer sem cair no desespero
O caso não prova sozinho o estado inteiro do mercado. É um relato público, de uma pessoa, em uma comunidade internacional. Mas ele é útil porque organiza dores que aparecem em várias frentes: vaga híbrida disfarçada, equity no lugar de salário, processo lento, abordagem suspeita e risco de golpe.
Para quem está procurando vaga em TI agora, algumas práticas viraram quase higiene básica:
- desconfie de recrutador usando e-mail genérico quando a empresa diz ser grande ou estruturada;
- confirme a vaga no site oficial da empresa antes de enviar dados sensíveis;
- rode desafios técnicos em ambiente isolado, principalmente quando vierem de fonte desconhecida;
- não instale dependências, extensões ou binários sem olhar o projeto;
- trate proposta “equity only” como empreendedorismo de risco, não como emprego;
- registre onde aplicou, quem respondeu e qual foi o próximo passo prometido;
- preserve energia para oportunidades com sinal melhor, não só para preencher planilha de candidatura.
Também vale uma leitura menos óbvia: construir prova pública de trabalho ajuda, mas não substitui filtro. Portfólio, GitHub, cases, texto técnico e networking ainda contam. Só que o profissional precisa proteger o próprio tempo e o próprio computador enquanto procura.
O mercado talvez esteja menos congelado do que em 2023 ou 2024. Mas, pelo que esse relato mostra, ele ficou mais ruidoso. E num mercado ruidoso, a habilidade de dizer “isso aqui não parece uma vaga de verdade” pode economizar tanto quanto um bom currículo.