400 candidaturas, 5 entrevistas e nenhuma proposta: o alerta da entrada em TI

O número chama atenção porque dói: mais de 400 candidaturas, cerca de 5 entrevistas com RH, só 1 conversa com líder técnico e nenhuma proposta.

O relato apareceu no Reddit, em uma comunidade de currículos, e não parece aquele desabafo genérico de quem mandou três vagas e desistiu. A pessoa descreve um perfil de 19 anos, cursando Engenharia de Software, com interesse forte em Linux, infra, DevOps, automação, segurança, Docker, virtualização, VPN, monitoramento, IaC, Java, Python, Git, Shell Script e Ansible.

Ou seja: não é falta de assunto para colocar no currículo. Talvez seja justamente o contrário.

O caso não é só sobre uma pessoa procurando estágio

Segundo o próprio autor do post, ele está se candidatando a 3 a 5 vagas por dia e pediu uma avaliação direta: currículo ruim, perfil nichado demais, expectativa fora do mercado ou falta de experiência?

A parte mais interessante da discussão é que os comentários não caem em uma resposta única. Alguns olham para o mercado e dizem que a entrada está realmente mais dura. Outros batem em pontos muito práticos: currículo poluído, muito detalhe técnico para quem ainda busca estágio, homelab ocupando espaço demais e pouca tradução do que aquilo gerou de valor.

Essa mistura é o retrato atual da entrada em TI. O candidato pode ser curioso, estudar bastante e montar projetos bons. Ainda assim, se o sinal que chega para recrutador e triagem parece uma sopa de ferramentas, o valor pode se perder antes de alguém técnico olhar.

O currículo virou um problema de sinal

Um comentário resume bem a tensão: o recrutador precisa bater o olho e entender valor, não apenas ver uma lista grande de tecnologias. Outro ponto recorrente foi separar experiência real de projeto pessoal. Homelab pode ser excelente para aprender infra, mas, no currículo de entrada, precisa aparecer como projeto, com escopo e resultado, não como se fosse vivência profissional consolidada.

Para quem vive de TI, isso parece detalhe. Para quem está tentando entrar, não é. O currículo de início de carreira precisa responder rápido a três perguntas:

  • que tipo de vaga essa pessoa está buscando?
  • qual prova mínima ela tem de que consegue entregar?
  • por que esse projeto importa para uma empresa, e não só para o laboratório pessoal dela?

Se o texto tenta provar tudo ao mesmo tempo, ele pode acabar não provando nada com clareza.

A IA aumentou a régua, mas não do jeito que muita gente imagina

O pano de fundo combina com pesquisas recentes sobre a entrada em software. Um estudo de 2026 publicado como IZA Discussion Paper analisou vagas online nos EUA e encontrou queda relativa de 14% a 15% nas vagas júnior de desenvolvimento em comparação com vagas sênior após a chegada do ChatGPT. O ponto mais importante: as vagas que sobraram passaram a pedir mais resolução de problema, comunicação e atenção a detalhe, não só “saber usar IA”.

A PwC também descreve uma escada mais comprimida: funções júnior expostas à IA aparecem muito mais associadas a habilidades tradicionalmente vistas como sênior, como julgamento, liderança e pensamento estratégico. Traduzindo para o dia a dia: a empresa continua querendo gente nova, mas quer que essa pessoa chegue errando menos, comunicando melhor e mostrando critério mais cedo.

No Brasil, a leitura fica ainda mais apertada quando olhamos para vagas e salários. A CodeCrush listava, em outubro, um recorte de vagas júnior com só 4% declarando remoto na amostra analisada. E um levantamento da Casa do Dev, baseado na Pesquisa Salarial do Código Fonte TV com 17.046 respondentes, coloca a média de desenvolvedor júnior em torno de R$ 5.060, mas lembra que a faixa real varia bastante e que vaga abaixo de R$ 3 mil continua existindo.

Não é exatamente “acabou a primeira vaga”. É pior para quem quer resposta simples: a primeira vaga existe, mas ficou mais seletiva, menos remota, mais barulhenta e mais dependente de prova prática bem comunicada.

O erro é tentar parecer sênior antes de parecer contratável

O caso do Reddit mostra uma armadilha comum em 2026: o candidato tenta compensar a falta de experiência formal com volume técnico. A intenção é boa. O efeito pode ser ruim.

Quando alguém sem experiência formal apresenta um currículo enorme, cheio de ferramentas, infra, cloud, automação, segurança e desenvolvimento, a leitura pode virar desconfiança: essa pessoa sabe operar esse mundo todo em produção ou só montou peças isoladas?

Para uma vaga de estágio ou júnior, às vezes funciona melhor parecer focado do que parecer infinito. Um perfil de infra/DevOps de entrada pode ser mais forte se disser algo como: “busco estágio em infraestrutura, suporte técnico ou DevOps júnior; tenho projetos de homelab com Docker, Linux, monitoramento e automação; consigo documentar, investigar problema e aprender com operação real”.

É menos brilhante. Mas é mais legível.

O que dá para tirar de prático

Se você está nessa fase, a lição não é jogar fora seus projetos. É transformar projeto em evidência.

Em vez de listar “Docker, Ansible, Linux, VPN, monitoramento”, conte o que foi montado, por que foi montado, qual problema resolveu e qual parte você consegue explicar em entrevista. Em vez de disputar vaga genérica de dev júnior com todo mundo, talvez faça sentido mirar portas menos glamourosas e mais coerentes com seu repertório: suporte técnico, NOC, infraestrutura, estágio em operações, sustentação, QA técnico, dados operacional ou TI interna em empresas fora do hype de startup.

Também vale reduzir o currículo até a parte que vende melhor a próxima conversa. Não é sobre esconder conhecimento. É sobre não obrigar uma pessoa cansada, ou uma triagem automática, a descobrir sozinha qual é a sua tese profissional.

A entrada em TI ficou mais estreita, sim. Mas esse caso mostra algo mais específico: quem está começando não precisa só estudar mais. Precisa fazer o estudo virar sinal claro de contratação.

Fontes

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