O dado mais incômodo do relato não é a quantidade de vagas. É a diferença entre o que a pessoa sentiu e o que a planilha mostrou.
Em um post publicado no DEV Community, uma desenvolvedora contou que aplicou para 59 vagas de tecnologia em 14 dias. No recorte inicial, o funil ficou assim: 6 rejeições confirmadas, 1 triagem técnica, 1 entrevista e 51 candidaturas ainda sem resposta substantiva.
É o tipo de número que muita gente no mercado de TI reconhece na hora. Você manda currículo, recebe silêncio, começa a achar que ninguém está olhando, e de repente uma rejeição pesa mais do que dez candidaturas que ainda nem tiveram tempo de respirar.

O silêncio não é todo igual
A parte mais honesta do relato é a autora não transformar todo silêncio em ghosting. Das 51 candidaturas sem resposta, 23 tinham sido enviadas nos dois últimos dias da janela analisada. Ou seja: ainda era cedo demais para chamar aquilo de abandono.
Mas havia outro bloco mais pesado: 20 candidaturas já estavam paradas havia pelo menos uma semana.
Essa separação muda a leitura. Para quem está procurando vaga, tudo vira uma nuvem só: candidatura enviada, nada aconteceu, próxima candidatura, nada aconteceu, mais um e-mail automático. Só que uma aplicação de ontem e uma aplicação de doze dias atrás não dizem a mesma coisa.
O primeiro aprendizado prático é esse: medir não serve para deixar a busca mais fria. Serve para impedir que a ansiedade misture tudo no mesmo balde.
Uma entrevista veio de onde ela menos esperava
Outro ponto bom do caso: mais de 70% das candidaturas foram para vagas de desenvolvimento de software. Mesmo assim, a primeira entrevista saiu de uma candidatura para technical writing, uma categoria menor dentro da busca.
Isso não prova que todo dev deveria virar redator técnico. O próprio relato evita essa conclusão apressada. O recorte é pequeno demais: oito aplicações para escrita técnica e uma entrevista.
Mas é um sinal útil. Às vezes, a oportunidade aparece onde o currículo tem uma combinação menos comum: saber programar, explicar, documentar, conversar com usuário, escrever tutorial, traduzir problema técnico para gente de produto ou suporte.
Para quem está entrando ou tentando se recolocar em TI, isso vale ouro. A vaga mais óbvia nem sempre é a única porta.
O trabalho pago veio fora do funil tradicional
O dado mais interessante do relato talvez nem esteja nas 59 candidaturas. No mesmo período, a autora conseguiu um trabalho pago de escrita técnica com a Sinch. Ela deixou claro que isso não fazia parte do funil de aplicações e não tentou inflar os números chamando aquilo de oferta.
Mas o contraste é forte.
De um lado: aplicar, cair em ATS, esperar, talvez receber resposta.
Do outro: construir coisas, escrever sobre o que fez, mostrar conhecimento em público e virar lembrança para uma oportunidade concreta.
A frase mais útil do relato é simples: o objetivo não é candidatura; o objetivo é oportunidade.
O que isso muda para quem está procurando vaga em TI
O caso combina com o que o mercado vem mostrando em outras frentes. Vagas júnior, associate e entry-level continuam aparecendo em listagens públicas, mas a disputa está barulhenta, fragmentada e cheia de etapas opacas. Em uma consulta pública recente no LinkedIn, por exemplo, apareciam cargos como Associate Software Developer, Junior Full Stack Software Engineer e Software Engineer I, mas isso por si só não diz quantas pessoas estão competindo nem quantas candidaturas chegam a uma conversa humana.
Ao mesmo tempo, a discussão sobre IA mudou a régua para entrada. Uma reportagem da IEEE Spectrum sobre revisão de código gerado por IA mostrou que empresas estão repensando como treinam engenheiros júnior quando boa parte do código inicial pode ser produzida por ferramenta. O alerta de uma executiva citada na matéria resume bem o risco: se a indústria parar de contratar júnior, ela também para de formar sênior.
Na prática, quem busca vaga precisa trabalhar em duas frentes ao mesmo tempo:
- continuar aplicando, porque volume ainda importa quando a taxa de resposta é baixa;
- criar evidência fora do currículo, porque projeto publicado, post técnico, contribuição open source e explicação clara podem virar sinal de confiança antes da entrevista;
- separar silêncio fresco de silêncio velho, para não transformar todo atraso em derrota pessoal;
- olhar para funções adjacentes, como suporte técnico, documentação, implementação, soluções e devrel, quando elas combinam com habilidades reais;
- medir o funil, mesmo que em uma planilha simples, para descobrir onde a busca está quebrando.
A planilha não resolve o mercado, mas reduz o delírio
O mercado de TI continua mais seletivo do que muita promessa de curso admite. Também continua menos morto do que o desespero do feed faz parecer.
O valor desse caso está justamente no meio-termo: 59 candidaturas não viraram 59 portas abertas, mas também não viraram zero sinal. Teve rejeição, teve silêncio, teve triagem, teve entrevista e teve trabalho pago fora do caminho tradicional.
Para quem está procurando vaga agora, a pergunta boa não é só “quantos currículos eu mandei?”. É:
qual canal está gerando movimento de verdade?
Se a resposta for “nenhum”, a estratégia precisa mudar. Se a resposta for “um canal pequeno está respondendo melhor”, talvez exista ali uma porta que o currículo tradicional ainda não mostrou.